segunda-feira, 15 de julho de 2013

Paulo e o Livre-arbítrio - Martinho Lutero


Nos caps. 9,10, 11, [Paulo] ensina a eterna predeterminação de Deus. Desse conceito provém originalmente a distinção entre quem há de crer e quem não há, quem se pode livrar de pecados ou não.
Com ele está de todo fora do nosso alcance e exclusivamente nas mãos de Deus, que nos tornemos retos. E isso é de suma necessidade. Pois somos tão fracos e inseguros que, se dependesse de nós, naturalmente nem uma pessoa sequer se salvaria, e o diabo com certeza a todas sobrepujaria. Mas, como para Deus é certo que não falhará naquilo que ele predetermina, tampouco alguém o pode impedir, ainda temos esperança contra o pecado.
Martinho Lutero - Obras Selecionadas, volume 8, p.139

Se Paulo não explica a questão do livre-arbítrio em Rm 9.20s, nem define a necessidade a que estamos ligados a partir da presciência e da vontade de Deus, por que lhe seria necessário introduzir a analogia do oleiro, que de um e o mesmo barro faz um vaso para a honra e o outro para a desonra? E, não obstante, a obra não diz ao que fez: por que me fazes assim? Isso porque ele fala sobre os seres humanos, comparando-os ao barro e Deus ao oleiro. A analogia é sem dúvida tímida, e até absurda e apresentada em vão, se ele não compartilha a opinião de que nossa liberdade é nula. E o que é mais: todo o debate de Paulo, com o qual defende a graça, é inútil. Pois toda a Epístola tem por alvo mostrar que não somos capazes de nada, nem mesmo quando parecemos obrar bem; é como ele diz, na mesma passagem, a respeito de Israel, que, ao perseguir a justiça, não a alcançou, ao passo que os gentios a alcançaram sem a perseguir.
Martinho Lutero – Obras selecionadas, volume 4, p.139

Argumenta-se: o ser humano recebeu uma vontade livre pela qual ele merece ou deixa de merecer alguma coisa. A resposta a isso é: a vontade livre, constituída fora da graça, não possui, em absoluto, nenhuma aptidão para a justiça, mas encontra-se necessariamente em pecado. Por isso, bem aventurado Agostinho está certo em seu livro “Contra Juliano” quando ele diz a esse respeito: “É preferível uma vontade cativa a uma vontade livre.” Porém, somente quando se tem a graça, a vontade torna-se propriamente livre, ao menos, com relação à salvação. A bem da verdade, ela é sempre livre num sentido natural; porém apenas em relação àquilo que está em seu poder e lhe é subordinado, mas não no tocante às coisas que estão acima dela, uma vez que ele está presa em pecados e, nesse caso, não tem capacidade para escolher o que é bom aos olhos de Deus.

Martinho Lutero – Obras selecionadas, volume 8, pp. 308-309

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